Pai levou 40 dias para produção em 3D do equipamento necessário, após espera de mais de um ano pelo governo. Iniciativa se transformou em movimento para ajudar outras famílias atípicas
Quando a pequena Sky, de apenas quatro anos, foi impedida de permanecer na escola por não possuir uma cadeira de rodas adequada, o pai, Derek Cruz, decidiu transformar indignação em ação. Morador de Praia Grande (SP), ele nunca havia utilizado uma impressora 3D, mas se empenhou para construir, com as próprias mãos, uma cadeira de rodas adaptada para a filha, diagnosticada com paralisia cerebral, com comprometimento motor.
No início do ano letivo, Sky chegou a ir para a creche de carrinho de bebê adaptado, único recurso disponível para garantir sua postura, já que ela não consegue sentar sozinha por não ter sustentação do tronco. No segundo dia de aula, no entanto, a família foi informada de que a menina não poderia frequentar as aulas sem uma cadeira de rodas apropriada. Após conversar com a direção da escola e representantes da secretaria de educação, os pais conseguiram autorização provisória para que Sky permanecesse na escola usando o carrinho adaptado enquanto aguardava a cadeira certa. O problema é que a cadeira fornecida pelo poder público, inicialmente prevista para chegar em poucos meses, demorou cerca de um ano e três meses para ser entregue.
Foi nesse período que Derek decidiu tornar realidade uma ideia apresentada anteriormente pela esposa, Daiane: fabricar uma cadeira de rodas por impressão 3D a partir de um projeto gratuito desenvolvido pela empresa MakeGood. Após relatar a situação nas redes sociais e iniciar uma campanha para adquirir uma impressora, uma empresa doou o equipamento em menos de 24 horas.
A impressão da cadeira levou cerca de 40 dias, conciliando o processo com a rotina intensa da família e os cuidados diários com Sky. O projeto de produção da cadeira de rodas foi documentado nas redes sociais e reuniu mais de 60 mil seguidores em poucos meses. Produzida inteiramente em impressão 3D, a cadeira utiliza materiais resistentes e flexíveis, como PETG e TPU, e custa entre R$ 900 e R$ 1.300 em insumos, além de componentes metálicos e rodas que somam cerca de R$ 400. Em comparação, cadeiras adaptadas no mercado podem custar a partir de R$ 5 mil, enquanto carrinhos posturais chegam a R$ 25 mil no Brasil.
Filipe Barcelos, ortopedista pediátrico, especializado em paralisia cerebral e doenças neuromusculares, diz que equipamentos posturais adequados são fundamentais não apenas para proporcionar conforto. “São essenciais também para favorecer o desenvolvimento motor, prevenir deformidades, facilitar a participação escolar e ampliar a autonomia da criança. “Cada pessoa precisa de um dispositivo compatível com suas necessidades clínicas. O acesso precoce faz diferença na qualidade de vida e na inclusão social, acrescenta Filipe, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e que é médico da Sky.
Inspirado pelas centenas de mensagens, Derek passou a ajudar famílias de crianças com deficiência, passando a produzir cadeiras para outras crianças com paralisia cerebral e também indicando voluntários. Hoje, cerca de 20 famílias aguardam atendimento. Além das cadeiras produzidas diretamente em 3D pela família da Sky, diversos voluntários já passaram a fabricar os equipamentos, que atendem crianças de 2 a 8 anos, em diferentes regiões do país. Antes da impressão, cada caso passa por uma triagem que inclui laudos médicos e orientações de terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas. Derek também criou campanhas online para ajudar outras famílias na produção das cadeiras de rodas e no tratamento da sua filha Sky. Para quem puder ajudar, o link é https://www.nossavaquinha.com.br/missaoskyjulho
Paulo Queiroz (21) 96736-4634 [email protected] instagram.com/jornalismopauloqueiroz
