Estudos indicam que o padrão é até quatro vezes mais comum em crianças com TEA e pode trazer impactos motores quando persiste após os três anos
Andar na ponta dos pés pode parecer apenas uma fase da infância, mas nem sempre é. Estudos recentes mostram que esse padrão de marcha atinge entre 5% e 24% das crianças e ocorre com mais frequência entre aquelas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Uma pesquisa publicada em 2025 no Journal of Foot & Ankle Surgery aponta que 1,5% das crianças sem autismo apresentam marcha persistente na ponta dos pés, enquanto entre crianças autistas esse número chega a 6,3% — cerca de quatro vezes mais.
No Brasil, o número de diagnósticos de TEA vem crescendo. Atualmente, cerca de 2,4 milhões de pessoas vivem com o transtorno, o equivalente a 1,2% da população, de acordo com o IBGE. Nesse cenário, características motoras como a marcha na ponta dos pés têm chamado cada vez mais a atenção de especialistas, sobretudo pelos possíveis impactos físicos associados.
Quando o padrão persiste após os três anos de idade, o quadro pode ser classificado como Marcha Equino Idiopática (MEI). Em muitos casos, há regressão espontânea: cerca de 50% das crianças deixam de andar na ponta dos pés até os 5 anos e meio, e 80% até os 10 anos. Ainda assim, uma parcela mantém o padrão, o que pode levar a encurtamento muscular, rigidez articular e limitações funcionais.
A capacitação de profissionais de saúde torna-se essencial para diagnóstico preciso e definição do melhor tratamento. Nos dias 15 e 16 de maio, em São Paulo, será realizado o 4º Curso de Marcha na Ponta dos Pés: Treinamento em Gessos Seriados, voltado para ortopedistas, fisiatras, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. A formação tem como objetivo oferecer conhecimento técnico aprofundado para o diagnóstico e tratamento da condição, com foco na aplicação prática da técnica de gessos seriados.
A programação será conduzida por nove especialistas da área, entre eles o ortopedista pediátrico Dr. Filipe Barcelos, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, referência em doenças neuromusculares e com mestrado sobre o tema. Realizado pela Bone Learning e Espaço Sete, com co-realização da Scientific Research Company, o encontro acontece no Centro de Treinamento Médico Quirontec. As inscrições podem ser feitas no site da Scientific Research Company.
Com conteúdo teórico e treinamento prático, os participantes poderão desenvolver raciocínio clínico e domínio da técnica, considerada uma das principais abordagens conservadoras para o tratamento da marcha na ponta dos pés. O método atua no alongamento progressivo da musculatura posterior da perna, contribuindo para a correção do padrão de marcha sem necessidade de cirurgia.
Segundo Dr. Filipe Barcelos, o tratamento conservador com gessos seriados pode auxiliar muitas crianças que andam na ponta dos pés a evitar cirurgias. O especialista destaca, no entanto, que as intervenções cirúrgicas também apresentam bons resultados quando indicadas corretamente. “Principalmente em casos de encurtamentos mais graves e em crianças mais velhas, os resultados são bastante animadores”, afirma o ortopedista.
Além da atuação clínica, o especialista integra o Laboratório de Estudo do Movimento Einstein (LEME), que utiliza tecnologia tridimensional para análise da marcha. Dr. Filipe também teve um trabalho aceito para apresentação no Congresso da Academia Europeia de Deficiência Infantil (EACD 2026), uma das principais referências internacionais em neurodesenvolvimento, reabilitação pediátrica e deficiência infantil. O evento acontecerá entre os dias 3 e 6 de junho, em Galway, na Irlanda.
Paulo Queiroz (21) 96736-4634 [email protected] instagram.com/jornalismopauloqueiroz
